Trabalhadores são obrigados a dormir em seus carros como “cães sem dono”
Empregados que trabalham na região próxima à avenida Engenheiro Luiz Carlos Berrini fazem hora antes do expediente devido a dificuldades de estacionamento e transporte público
Por Verônica Petrelli
“O luxo é uma falsa imagem que a avenida Berrini passa”. É essa a declaração do produtor Mário Marcos, 62, ao jornal Folha de São Paulo. Afinal, com tantos prédios de escritórios na região da marginal Pinheiros, é difícil de imaginar que dezenas de trabalhadores têm de chegar cerca de duas horas antes de seu expediente começar para encontrar um local para estacionar o seu carro. A analista financeira Paula Juscelina, 30, por exemplo, começa a laborar às 9h00, mas chega às 6h30 na Berrini para garantir um lugar ao seu veículo. E afirma que tem medo de permanecer no carro, pois os riscos de assaltos são grandes.
Contudo, não são todos que abdicam do “conforto” de seus carros. O maître Antônio Gomes Paiva, 51, e o técnico de computador Vitor Hirata, 24, costumam esperar o início do expediente dormindo no veículo, lendo ou escutando músicas. Dizem não temer os assaltos.
Tudo isso acontece devido, principalmente, a falta de opções de transporte coletivo no local, que disponibiliza apenas uma linha de trem (que não faz nenhuma ligação com qualquer estação de metrô), 20 linhas de ônibus (menos da metade do que encontramos na Avenida Paulista, que possui 48 linhas) e nenhuma linha de metrô. O resultado são gastos maiores com transporte; e isso sem contar a lotação dos ônibus, que além de irem e voltarem apinhados de gente, passam na Berrini a intervalos regulares de tempo.
Como se isso tudo não bastasse, os estacionamentos, além de estarem, também, lotados, cobram preços “montanhescos” dos motoristas. É o que alega uma pesquisa feita pela redação da Folha de São Paulo, na qual não se encontrou vagas mais baratas que R$ 200 mensais. Conclusão: as redes de estacionamento se aproveitam da vulnerabilidade dos motoristas para colocar o preço às alturas.
O manobrista Fernando Nunes, 43, trabalha em um estacionamento que inaugurou há poucas semanas e já está saturado de carros. Ele conta que, em apenas três dias, vendeu 150 pacotes de vagas mensais, tal é o desespero dos trabalhadores em garantir sua vaga segura ou aproveitar mais umas horinhas de sono em suas camas. Houve pessoas que chegaram a esperar vários meses por uma vaga em estacionamento, tão grande é a procura.
O certo seria as autoridades tomarem medidas urgentes para garantir a acessibilidade desses cidadãos aos seus locais de trabalho sem estresses e confusões. Porém, o povo brasileiro até já se acomodou a situações adversas, devido à impunidade do Estado. Afinal, como pensam muitos, se formos esperar a ação…

Vista aérea da Avenida Engenheiro Luiz Carlos Berrini
Para ler um pouco mais sobre o trânsito de São Paulo e suas dificuldades, visite o Blog Leituras Favre.
Se quiser ver opiniões sobre o problema de estacionamento em São Paulo, visite o Blog do Gama.